SEARA DE ÓDIO

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Humberto de Campos

 

 

–           Não! Não te quero em meus braços! – dizia a jovem mãe, a quem a Lei do Senhor conferira a doce missão da maternidade, para o filho que lhe desabrochava do seio – não me furtarás a beleza! Significas trabalho, renúncia, sofrimento…

 

–           Mãe, deixa-me viver!… Suplicava-lhe a criancinha no santuário da consciência – estamos juntos! Dá-me a bênção do corpo! Devo lutar e regenerar-me. Sorverei contigo a taça de suor e lágrimas, procurando redimir-me… Completar-nos-emos. Dá-me arrimo, dar-te-ei alegria. Serei o rebento de teu amor, tanto quanto serás para mim a árvore de luz, em cujos ramos tecerei o meu ninho de paz e de esperança…

 

–           Não, não…

 

–           Não me abandones!

 

–           Expulsar-te-ei.

 

–           Piedade mãe! Não vês que procedemos de longe, alma com alma, coração a coração?

 

–           Que importa o passado? Vejo em ti tão-somente o intruso, cuja presença não pedi.

 

–           Esqueces-te, mãe, de que Deus nos reúne? Não me cerres a porta!…

 

–           Sou mulher e sou livre. Sufocar-te-ei antes do berço…

 

–           Compadece-te de mim!…

 

–           Não posso. Sou mocidade e prazer, és perturbação e obstáculo.

 

–           Ajuda-me!

 

–           Auxiliar-te seria cortar em minha própria carne. Disputo a minha felicidade e a minha leveza feminil…

 

–           Mãe, ampara-me! Procuro o serviço de minha restauração…

 

Dia a dia, renovava-se o diálogo sem palavras, até que, quando a criança tentava vir à luz, disse-lhe a mãezinha cega e infortunada, constrangendo-a a beber o fel da frustração:

 

–           Torna à sombra de onde vens! Morre! Morre!

 

–           Mãe, mãe! Não me mates! Protege-me! Deixa-me viver…

 

–           Nunca!

 

–           Socorre-me!

 

–           Não posso.

 

Duramente repelido, caiu o pobre filho nas trevas da revolta e, no anseio desesperado de preservar o corpo tenro, agarrou-se ao coração dela, que destrambelhou, à maneira de um relógio desconsertado…

 

Ambos, então, ao invés de continuarem na graça da vida, precipitaram-se no despenhadeiro da morte.

 

Desprovidos do invólucro carnal, projetaram-se no Espaço, gritando acusações recíprocas.

 

Achavam-se, porém, ligados um ao outro, pelas cadeias magnéticas de pesados compromissos, arrastando-se por muito tempo, detestando-se e recriminando-se mutuamente…

 

A sementeira de crueldade atraía a seara de ódio. E a seara de ódio lhes impunha nefasto desequilíbrio.

 

Anos e anos desdobraram-se, sombrios e inquietantes, para os dois, até que, um dia, caridoso Espírito de mulher recordou-se deles em preces de carinho e piedade, como a ofertar-lhes o próprio seio. Ambos responderam, famintos de consolo e renovação, aceitando o generoso abrigo…

 

Envolvidos pela caricia maternal, repousaram enfim. Brando sono pacificou-lhes a mente dolorida.

Todavia, quando despertaram de novo na Terra, traziam o estigma do clamoroso débito em que se haviam reunido, reaparecendo, entre os homens, como duas almas apaixonadas pela carne, disputando o mesmo vaso físico, no triste fenômeno de um corpo único, sustentando duas cabeças.

Livro; Contos e Apólogos – Psicografia: Francisco Cândido Xavier – Pelo Espírito Humberto de Campos – Lição 11

 

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