O Passamento, ou o desprendimento do Espírito do Corpo

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Cairbar Schutel

 

 

Esta obra ressentir-se-ia de uma grande lição se, por ignorância, ou por zelo extremo em pretendermos enunciar ideias novas, não incluíssemos, nestas páginas, o Introito da 2.ª parte de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, no qual o Mestre, com Lógica admirável e singular concisão, esclarece o processo que denominamos “morte” e que o Espiritismo, com justa razão chamou “desencarnação”.

Estas poucas páginas, que deliberamos incluir como parte integrante deste livro, constituem um dos grandes capítulos do Espiritismo, ciência nova, que aborda, com admirável proficiência, a Vida, quer na sua forma externa, visível, que afeta os sentidos humanos, quer em sua modelação, para nós subjetiva, interna, em seu não menos emocionantes, que exaltam, não a fé que vê, mas a mais aperfeiçoada, a mais emotiva – a fé que sente.

Sem outras considerações, que só poderiam empanar a luz que ressalta dos ensinamentos convincentes de um dos maiores representantes do Paracleto, prometido por Jesus para nos ensinar todas as coisas (João, XIV, 26), damos a palavra ao ínclito Codificador da Doutrina dos Espíritos, o grande missionário lionês, perfeita personificação da Ressurreição e da Vida:

“A certeza da vida futura não exclui as apreensões quanto à passagem desta para a outra vida. Há muita gente que teme, não a morte em si; mas o momento da transição.

Sofremos ou não nessa passagem? Por isso se inquietam, e, com razão, visto que ninguém foge à lei fatal dessa transição. Podemos dispensar-nos de uma viagem neste mundo, menos essa. Ricos e pobres, devem todos fazê-la, e por dolorosa que seja a franquia, nem posição nem fortuna poderiam suaviza-la.

“Vendo-se a calma de alguns moribundos e as convulsões terríveis de outros, pode-se previamente julgar que as sensações experimentadas nem sempre são as mesmas. Quem poderá, no entanto, esclarecer-nos a tal respeito? Quem nos descreverá o fenômeno fisiológico da separação entre o Espírito e o corpo? Quem nos contará as impressões desse instante supremo, quando a Ciência e a Religião se calam? E calam-se porque lhes falta o conhecimento das leis que regem as relações entre o Espírito e a matéria, parando, uma, nos umbrais da vida espiritual, e, a outra, nos da vida material. O Espiritismo é o traço de união entre ambas, e só ele pode dizer-nos como se opera a transição, quer pelas noções mais positivas da natureza da alma, quer pela descrição dos que deixaram este mundo. O conhecimento do laço fluídico que une o Espírito ao corpo é a chave desse e de muitos outros fenômenos.

“A insensibilidade da matéria inerte é um fato, e só a alma (*) experimenta sensações de dor e de prazer. A desagregação repercute na alma que, por tal motivo, recebe uma “impressão” mais ou menos dolorosa. É a alma e não o corpo quem sofre, pois este não é mais que o instrumento da dor: aquela é o paciente. Após a morte, separado o Espírito, o corpo pode ser impunemente mutilado que nada sentirá, enquanto que, aquela, por isolada, nada experimenta da destruição orgânica. O Espírito tem sensações próprias cuja fonte não reside na matéria tangível. O perispírito é o envoltório do Espírito, e não se separa dele nem antes nem depois da morte: forma, com ele, uma só entidade, e nem mesmo se pode conceber um sem o outro. Durante a vida o fluido perispiritual penetra o corpo em todas as suas partes e serve de veículo ás sensações físicas da alma, do mesmo modo como esta, por seu intermédio, atua sobre o corpo e dirige-lhe os movimentos.

(*) Segundo se lê em O Livro dos Espíritos (Parte 2.8, Capítulo II), a alma é o Espírito encarnado. Por isso dizemos; “tal pais tem tantos milhões de almas”. Livre da matéria, não se designa por alma, mas, sim, por Espírito.

“A extinção da vida orgânica acarreta a separação do Espírito, em conseqüência do rompimento do laço fluídico que o une ao corpo, mas essa separação não é brusca.

“O fluido perispiritual, só pouco a pouco se desprende de todos os órgãos, de sorte que a separação só é completa e absoluta quando não mais reste um átomo de perispírito ligado às moléculas do corpo. A sensação dolorosa da alma, por ocasião da morte, está na razão direta da soma de pontos de contacto existentes entre o corpo e o perispírito, e, por conseguinte, também da maior à menor dificuldade que apresenta o rompimento”.

Portanto, não é preciso dizer que, conforme as circunstâncias, a morte pode ser mais ou menos penosa. Estas circunstâncias é que nas cabem examinar.

Estabeleçamos, em primeiro lugar, e como princípio, os quatro seguintes casos, que podemos reputar situações extremas, dentro de cujos limites há uma infinidade de variantes:

1.°- Se, no momento em que se extinguisse a vida orgânica, o desprendimento do perispírito fosse completo, a alma nada sentiria, absolutamente.

2.°- Se, nesse momento, a coesão de ambos elementos estiver no auge de sua força, produzir-se-á uma espécie de ruptura, que reagirá dolorosamente sobre a alma.

3.° – Se a coesão for fraca, a separação tornar-se-á fácil, operando-se sem abalo.

4.°- Se, após a cessação completa da vida orgânica, existirem ainda numerosos pontos de contacto entre o corpo e o perispírito, o Espírito poderá ressentir-se dos efeitos da decomposição do corpo até que o laço inteiramente se desfaça.

Daí resulta que o sofrimento, que acompanha a morte, está subordinado à força adesiva que une o corpo ao perispírito; que tudo quanto puder atenuar essa força e a rapidez do desprendimento, tornará a passagem menos penosa; e, finalmente, que, se o desprendimento operar-se sem dificuldade, a alma deixará de experimentar qualquer sentimento desagradável.

Na transição da vida corporal para a espiritual, produz-se ainda um outro fenômeno de importância capital – a perturbação.

Nesse instante, a alma experimenta um torpor que paralisa momentaneamente as suas faculdades, neutralizando, ao menos em parte, as sensações. E um estado semelhante ao da catalepsia, de modo que a alma quase nunca testemunha conscientemente o derradeiro suspiro. Dizemos quase nunca porque há casos em que a alma pode completar conscientemente o desprendimento, como em breve veremos. A perturbação deve, pois, ser considerada o estado normal no instante da morte, e perdurar por tempo indeterminado, variando de algumas horas a alguns anos. A proporção que se liberta, o Espírito encontra-se em situação comparável a de um homem que desperta de profundo sono: as idéias são confusas, vagas, incertas; a vista apenas distingue como que através de um nevoeiro, mas pouco a pouco se aclara, desperta-se-Ihe a memória e o conhecimento de si mesma. Bem diverso é, contudo, esse despertar; calmo, para uns, acorda-lhes sensações deliciosas; tétrico, aterrador e ansioso, para outros, é qual horrendo pesadelo.

O último alento quase nunca é doloroso, uma vez que, ordinariamente, ocorre em momento de inconsciência; mas o Espírito sofre, antes dele, a desagregação da matéria, nos estertores da agonia, e, depois, as angústias da perturbação. Demo-nos pressa em afirmar que esse estado não é geral, porquanto a intensidade e duração do sofrimento estão na razão direta da afinidade existente entre corpo e perispírito. Assim, quanto maior for essa afinidade, tanto mais penosos e prolongados serão os esforços do Espírito para desprender-se. Há pessoas nas quais a coesão é tão fraca, que o desprendimento se opera por si mesmo, como que naturalmente; é como se um fruto maduro se desprendesse do seu caule: é o caso das mortes calmas e do pacífico despertar no Mundo Espiritual.

A causa principal da maior ou menor facilidade de desprendimento, é o estado moral da alma. A afinidade entre o corpo e o perispírito, é proporcional ao apego à matéria, que atinge o seu máximo no homem, cujas preocupações dizem respeito unicamente à vida e gozos materiais. Ao contrário, nas almas puras que, antecipadamente, se identificam com a vida espiritual, o apego é quase nulo. E, desde que a lentidão e dificuldade do desprendimento se filia ao grau de pureza e desmaterialização da alma, de nós somente depende o tornar fácil ou penoso, agradável ou doloroso esse desprendimento.

Posto isto, quer como teoria, quer como resultado de observações, resta-nos examinar a influência do gênero de morte sobre as sensações da alma, nos últimos transes.

Em se tratando de morte natural, resultante da extinção das forças vitais por velhice ou doença, o desprendimento opera-se gradualmente; para o homem cuja alma se desmaterializou, e cujos pensamentos se destacam das coisas terrenas, o desprendimento quase se completa antes da morte real, isto é, ao passo que o corpo ainda tem vida orgânica, o Espírito já penetra a vida espiritual, apenas ligado por elo tão frágil, que se rompe com a última pancada do coração. Nesta contingência o Espírito pode já ter recuperado a sua lucidez, de molde a tornar-se testemunha consciente da extinção do corpo, considerando-se feliz por tê-lo deixado. Para esse, a perturbação é quase nula, ou antes, não passa de ligeiro sono calmo, do qual desperta com indizível impressão de esperança e ventura.

No homem materializado e sensual, que mais viveu do corpo que do espírito, para o qual a vida espiritual nada significa, nem sequer lhe toca o pensamento, tudo contribui para estreitar os laços materiais; e quando a morte se aproxima, o desprendimento, conquanto se opere gradualmente também, demanda contínuos esforços. As convulsões da agonia são indícios da luta do Espírito, que, às vezes, procura romper os elos resistentes, e, outras, se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arrebata com violência, molécula por molécula.

Quanto menos vê o Espírito além da vida corporal, tanto mais se lhe apega, e, assim, sente que ela lhe foge e quer retê-la; em vez de se abandonar ao movimento que o empolga, resiste com todas as forças e pode mesmo prolongar a luta por dias, semanas e meses inteiros.

Certo, nesse momento o Espírito não possui toda a lucidez, visto como a perturbação de muito se antecipou à morte; mas nem por isso, sofre menos, e o vácuo em que se acha, e a incerteza do que lhe sucederá, agravam-lhe as angústias. Dá-se, por fim, a morte, e nem por isso está tudo terminado; a perturbação continua, ele sente que vive, mas não define se material ou espiritualmente, e luta, e luta ainda, até que as últimas ligações do perispírito se tenham de todo rompido. A morte pós termo à moléstia efetiva, porém, não lhe sustou as conseqüências, e, enquanto existirem pontos de contato do perispírito com o corpo, o Espírito se ressentirá e sofrerá com as suas impressões.

Quão diversa é a situação do Espírito desmaterializado, mesmo nas enfermidades mais cruéis! Sendo frágeis os laços fluídicos que o prendem ao corpo, desfazem-se suavemente; depois, a confiança do futuro entrevisto em pensamento ou na realidade, como sucede algumas vezes, fá-lo encarar a morte qual redenção, e, as suas conseqüências, como prova, advindo-lhe daí uma calma resignada, que lhe ameniza o sofrimento.

Após a morte, rotos os laços, nem uma só reação dolorosa existe que o afete; o despertar é lépido, desembaraçado; por sensações únicas, o alívio, a alegria!

Na morte violenta, as sensações não são precisamente as mesmas. Nenhuma desagregação inicial pode iniciar previamente a separação do perispírito, ao passo que a vida orgânica em plena exuberância de força é, subitamente, aniquilada. Nestas condições, o desprendimento só começa depois da morte e não pode completar-se rapidamente. O Espírito, colhido de improviso, fica como que aturdido, e sente, e pensa, e acredita-se vivo, prolongando-se esta ilusão até que compreenda o seu estado. Este estado intermediário entre a vida corporal e a espiritual é dos mais interessantes, porque apresenta o espetáculo singular de um Espírito que julga material o seu corpo fluídico, experimentando, ao mesmo tempo, todas as sensações da vida orgânica! Além disso, dentro desse caso, há uma série infinita de modalidades, que variam segundo os conhecimentos e progressos morais do Espírito. Para aqueles que se purificam em alto grau, a situação pouco dura, porque já possuem, em si, como que um desprendimento antecipado, cujo termo a morte mais súbita não faz senão apressar. Outros há, para os quais a situação se prolonga por anos inteiros. É situação, aliás, muito freqüente, até nos casos de morte comum, que, nada tendo de penosa para Espíritos adiantados, torna-se horrível para os atrasados. No suicida, principalmente, excede toda a expectativa. Preso ao corpo por todas as suas fibras, o perispírito faz repercutir, no Espírito, todas as sensações daquele, com sofrimentos cruciantes.

O estado de Espírito, por ocasião da morte, pode ser assim resumido:

Tanto maior é o sofrimento, quanto mais lento for o desprendimento do perispírito; a presteza deste desprendimento está na razão direta do adiantamento moral do Espírito; para o Espírito desmaterializado, de consciência pura, a morte é qual um sono breve, isento de agonia, e cujo despertar é suavíssimo.

Para que cada qual trabalhe na sua purificação, reprima as más tendências e domine as paixões, abdicando das vantagens imediatas em prol do futuro, visto como, para identificar-se com a vida espiritual, encaminhando para ela todas as aspirações e preferindo-a à vida terrena, não basta crer, mas compreender. Devemos considerar essa vida sob um ponto de vista que satisfaça, ao mesmo tempo, a razão, a lógica, o bom senso e o conceito em que temos a grandeza, a bondade, e a justiça de Deus. Considerado deste ponto de vista, o Espiritismo, pela fé inabalável que insinua, é, de quantas doutrinas filosóficas conhecemos, a que exerce mais poderosa influência.

O Espírita sério não se limita a crer, porque compreende, e compreende porque raciocina; a vida futura é uma realidade que se desenrola incessantemente a seus olhos; uma realidade que ele toca e vê, por assim dizer, a cada passo, de modo que a dúvida não pode empolgá-lo, ou ter guarida em sua alma. A vida corporal, tão limitada, amesquinha-se diante da vida espiritual, da verdadeira vida. Que lhe importam os incidentes da jornada se ele compreende a causa e utilidade das vicissitudes humanas, quando suportadas com resignação? A alma eleva-se-lhe nas relações com o mundo invisível; os laços fluídicos, que o ligam à matéria, enfraquecem-se, operando-se, por antecipação, um desprendimento parcial que facilita a passagem outra vida. A perturbação consequente à transição pouco perdura, porque, uma vez franqueada o passado, logo se reconhece no seu novo estado, nada estranhando, antes compreendendo a situação em que se encontra.

Com certeza, não é só e Espiritismo que nos assegura tão auspicioso resultado, nem ele tem a pretensão de ser o meio exclusivo, a garantia única de salvação para as almas. Força é confessar, porém, que, pelos conhecimentos que fornece, pelos sentimentos que inspira, como pelas disposições em que coloca o Espírito, fazendo-lhe compreender a necessidade de melhorar-se, facilita enormemente a salvação. Ele dá algo mais, e a cada um: os meios de facilitar o desprendimento de outros Espíritos ao deixarem o invólucro material, abreviando-lhes a perturbação pela evocação e pela prece. Pela prece sincera, que é magnetização espiritual, provoca-se a desagregação mais rápida do fluido perispiritual; pela evocação criteriosa, sábia, prudente, com palavras de benevolência e conforto, combate-se o entorpecimento do Espírito, ajudando-o a reconhecer-se mais cedo, e, se é sofredor, insinua-se-lhe o arrependimento, único meio de abreviar os seus sofrimentos.

Livro: “A Vida no Outro Mundo” – Por Cairbar Schutel – Capítulo XIV

 

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