Convivência

ConvivênciaProposito-1

Martins Peralva

Eu não vim chamar os justos…

Foi o banquete em casa de Levi, o futuro evangelista Mateus, que ensejou ao Mestre as palavras em epígrafe.

Palavras que venceriam os séculos, os milênios… Levi era publicano, o que, na antiga Roma, significava “cobrador de impostos”.

Os publicanos eram detestados pelos judeus, que não gostavam de pagar tributos a César, especialmente porque os misteres de arrecadação favoreciam, da parte de funcionários inescrupulosos, já àquele tempo, extorsões duras e polpudas.

De maneira geral, portanto, eram mal vistos os publicanos, na comunidade israelita, embora entre eles houvesse homens de bem, inatacáveis por sua probidade.

Prevalecia, contudo, o conceito genérico: os publicanos eram espoliadores do povo.

O convite a Levi Mateus; a presença de Jesus em sua casa; o lauto banquete por ele oferecido ao Mestre, tudo isso constituiu motivo para censuras e comentários mordazes.

O mesmo acontecera na visita do Senhor a Zaqueu, também publicano.

A atitude caridosa do Amigo Celeste produziu tamanha celeuma entre fariseus e escribas, fiéis e inconfundíveis representantes do formalismo e da hipocrisia, que eles não se contiveram, interpelando o Justo dos Justos: “Porque comeis e bebeis com publicanos e pecadores ?“ E o Mestre, sem trair a grandeza, a excelsitude do seu incompreendido apostolado, apostolado de luz e de misericórdia, responde-lhes, com firmeza, que os sadios “não precisam de médico, e, sim, os doentes”.

E conclui, incisivo, categórico: — “Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento.”

Tais palavras revelam não só infinita compaixão pelos infelizes, que são os que pecam, mas, também, incomensurável sentimento de tolerância.

A advertência do Cristo, emudecendo, naquele dia, os loquazes fariseus, ecoa, ainda hoje, em nossa consciência, estabelecendo linhas diferentes para a nossa caminhada.

O Espiritismo tornou suas as palavras de Jesus, cujo pensamento sintetiza na atualidade.

E os Espíritas de boa vontade, esclarecidos e fraternos, esforçam-se no sentido de dar-lhes aplicação.

Os Espíritas, procurando assimilar e exemplificar o ensino, reconhecem que, se é realmente agradável o convívio com irmãos superiores, profundamente fraterno e meritório é o acolhimento àqueles que ocupam, na escala evolutiva, posição menos segura que a nossa.

Os companheiros mais esclarecidos têm muito para nos dar, através da palavra e, sobretudo, da exemplificação.

Aos mais atrasados do que nós, podemos oferecer algo de nosso coração, de nosso entendimento.

Assimilar dos mais evoluídos a bondade e a sabedoria, é realmente proveitoso às nossas experiências. Proveitoso e bom, agradável e envolvente, convenhamos.

No entanto, abraçar os que aceitaram, por equívoco, as sugestões do erro e do crime, constitui valioso programa evangélico, tal como fez Jesus em casa de Zaqueu ou no banquete de Levi.

Por meio desse regime de interdependência, afetiva e cultural, é que se movimentam os carros do progresso, conduzindo a Humanidade, com segurança, para os seus alevantados objetivos.

“A mente, em qualquer plano, emite e recebe, dá e recolhe, renovando-se constantemente para o alto destino que lhe compete atingir” — esclarece o nobre Em-manuel.

Recolhendo de Jesus, na inesquecida hora do banquete mundano, o verbo reajustador, Levi Mateus soube multiplicar, a cento por um, através de suas anotações, o benefício do precioso minuto de convivência com o Mestre.

E somos nós, os aprendizes da atualidade, os beneficiários daquela convivência tão acremente censurada…

Somos nós os legatários dos sublimes apontamentos.

Livro: “Estudando o Evangelho” – Por Martins Peralva – Capítulo 12

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