Reflexões Angustiantes

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Amélia Rodrigues

 

Tudo lhe aconteceu rapidamente como um raio que rasgasse a treva densa e sua força terrível o fulminasse, mesmo antes da tragédia que iria desencadear.

No íntimo ele sabia que algo de inconcebível iria acontecer, e temia que fosse o instrumento desse horror. É como se o maligno se lhe houvesse penetrado com as suas ardilosas redes de crueldade. Pensava sobre isso, a princípio com medo, depois foi-se adaptando à ideia e, por fim, tresloucado, executou-a: vendeu o Amigo!…

O ato insano foi muito rápido, irracional, criminoso. Bastou que Ele dissesse durante a ceia, embora a infinita amargura na voz:

(…) O que fazes, faze-o depressa. (18)

E ele correu desvairado na direção dos sinedritas com os quais se houvera comprometido antes, e vendeu-o.

João, 13:27 (nota da Autora espiritual).

Não tinha dimensão do ato alucinado que praticara, mas assim mesmo o realizou, pois que estava fora de si, a consciência adormecida pelo anestésico da dúvida, da ingratidão…

O que sucedeu, logo depois, foi inexplicável surpresa acompanhada de dores amargas.

A negociata infame previa que os acontecimentos deveriam suceder depois da Páscoa, mas ele, que era traidor, também foi traído pelos que o concitaram ao hediondo crime.

Quem negocia com criminosos padece-lhes o caráter venal, a aspereza da indignidade.

A psicosfera em Jerusalém, naquele momento, como sempre, era asfixiante, e aquela seria a noite mais longa dentre todas as suas noites.

Ele seguira com a triste comitiva armada de varapaus e lâminas dos soldados, acompanhados pela ralé dos desocupados, da súcia infeliz, na direção do Getsêmani, onde sabia que Ele estava orando.

Como pudera utilizar-se daquele momento para a detestável conduta?! Não soube dizê-lo. A verdade é que, ao vê-lo tão angustiado ao brilho dos archotes de labaredas vermelhas, não trepidou e beijou-o na face, conforme houvera combinado, a fim de informar quem era a vítima.

Viu-o, então, ser aprisionado sem nenhuma resistência, fitá-lo com infinita compaixão e deixar-se conduzir à presença dos infames julgadores.

Passava da meia-noite, mas a malta dos malfeitores e vagabundos, assim como dos demais que se encontravam a soldo do Sinédrio, superlotava o pátio onde Pilatos mandou despi-lo, chibatá-lo, numa tentativa de salvá-lo da sanha perversados seus, sem que Ele se queixasse, enquanto todos, inclusive muitos que foram beneficiários do Seu amor, apupavam-no.

A ingratidão das criaturas humanas é proverbial, e a massa é um monstro que obedece ao comando do mais cruel.

Tremeu, acovardado, na escuridão de um lugar de onde podia vê-lo vencido, Ele, que era seu amigo!

Foi então, milagre da consciência, que a culpa se lhe insculpiu na alma com o ferro em brasa do remorso.

As lágrimas avolumaram-se nos olhos e escorreram como ácido queimando lhe a face deformada pelo estupor que o tomou naquele momento.

Correu na direção dos abutres que o traíram e tentou reparar o erro ignominioso.

A galhofa e a ironia dos vencedores de mentira foram a resposta que lhe deram. Tentou explicar-se, mas não havia ouvidos que o escutassem. Reconheceu o seu crime, mas isso era com ele, e não com os mesquinhos negociantes que o aliciaram.

Desesperado, atirou-lhes as trinta malditas moedas de prata que eram o preço da traição e saiu enlouquecido, sem forças, nem sequer para gritar a própria desdita.

As sombras densas e o clima terrível, resultado das mentes infelizes reunidas para o grande desfecho, abafavam as emoções que o asfixiavam.

O horror apresentava-se em forma de fantasma sobre a cidade infeliz dos profetas desprezados e assassinados, conforme Ele o declarara oportunamente…

Não suportou o desconforto superlativo que o tomou todo, e a mesma força tiranizante que o desgovernava sussurrou-lhe a fuga pelo suicídio, que ele atendeu de imediato, atirando uma corda vigorosa sobre um galho forte de velha figueira, e enforcou-se…

Quando ele recebeu o chamado daquele Estranho, era jovem, e todas as fibras do corpo e da alma vibraram de especial emoção.

Chamava-se Judas que, em hebraico, significa agradecimento, ish Kerioth, também significando homem de Kerioth, cidadezinha ao sul de Judá, e naquela ocasião era um idealista, um sonhador.

Possuidor de lúcida inteligência, foi recebido pelo grupo de pescadores e pessoas simples com carinho e júbilo, tendo sido destacado para ser responsável pela guarda dos seus escassos recursos monetários, seus reduzidos haveres…

Ficou entusiasmado com o chamado, e fascinado com Aquele que o havia destacado com o convite.

Quem convivesse com Jesus não tinha alternativa: amava-O para sempre, ou detestava-O, nunca ficando indiferente.

Ele deixou-se abrasar pelo Seu verbo altissonante e doce ao mesmo tempo. A Sua mensagem repassada de ternura era um refrigério para a ardência do seu temperamento inquieto e para as suas ambições, pois que anelava por conquistar o mundo, pelo poder, pelo destaque social…

Pertencer a um reino especial era tudo quanto desejava então, tornando-se importante, merecendo e conseguindo homenagens e honrarias como via acontecer com outros, que considerava sem mérito para tanto.

Tudo lhe parecia estar ao alcance, agora que se encontrava ao lado do Taumaturgo que tinha poder até mesmo sobre as forças da Natureza.

Vira-O limpar a morfeia em corpos apodrecidos que se recompuseram de imediato e não ocultava o contentamento por tê-lo como Amigo.

Todos os fenômenos, imagináveis ou não, ele os vira acontecer com a interferência daquele meigo Rabi que o comovia profundamente.

As multidões emocionadas seguiam-no docemente, como ovelhas submissas ao cajado do seu pastor.

À medida que convivia com Ele e os demais amigos, sua natureza experimentava alterações.

Não entendia, por exemplo, porque Ele preferia os miseráveis, os réprobos, e dialogava com todos sentando-se à mesa com eles, que eram rejeitados por todos e por todos repudiados?

Certamente que ele explicava serem os enfermos aqueles que necessitam do médico, sendo Ele o médico dos desventurados, particularmente dos excluídos da sociedade pusilânime de sua época.

Mas observava também que príncipes e militares de alto coturno O buscavam, porém sem receberem qualquer privilégio conforme suas posições requeriam. Ele era capaz de deixá-los esperando para atender um pária detestado, o que não lhe parecia justo nem coerente.

A pouco e pouco, os conflitos iniciais converteram-se em insegurança, e dessa passou a agasalhar dúvidas e receios quanto à vitória da empresa em que se encontrava.

Amava Jesus, sim, a seu modo, mas nem sempre O compreendia. Os Seus silêncios eram perturbadores e a Sua indiferença pelos bens materiais, quase os desprezando, era difícil de entender-se…

No banquete, por exemplo, na casa de Simão – outro detestado pela lepra que o vencia -, quando Maria derramou-Lhe de surpresa o perfume especial e de alto preço, numa demonstração de afeto, ele não pôde silenciar e exclamou:

— Por que não se vendeu esse perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?

Em verdade, não era por sentimento de amor aos pobres e sofredores que ele tomara essa atitude, mas por avareza, por despeito, porque já furtava os bens dos amigos…

Noutras vezes, irara-se com os companheiros que demonstravam desconfiança a respeito da sua fidelidade e do seu valor.

Mas lentamente tentou ajustar-se ao grupo e ser útil.

Quando constatou, porém, que o Mestre não iria oferecer a Israel a governança do mundo, esmagando o Império Romano, decepcionou-se, e pensou que poderia precipitar os acontecimentos.

— Quem sabe? — pensara – numa circunstância grave Ele não se desvelaria, apelando para os Seus simpatizantes, que aguardavam somente a Sua voz de comando?

Ledo equívoco, infeliz conclusão, pois que o Reino d Ele não era deste mundo, e ele se enganou terrivelmente, perdendo a oportunidade, aniquilando-se…

Judas amava Jesus, porém se interessava mais pelos próprios projetos e não pela promessa de amor incondicional e da imortalidade…

Infeliz, atirou-se no abismo da perdição mediante a loucura do autocídio, esquecido do Amor não amado que, apesar de tudo, não o olvidou, indo resgatá-lo nas regiões inferiores de sofrimentos inenarráveis, antes de ressurgir na madrugada do terceiro dia, após a sua crucificação e morte. Isto porque o amor não tem limites…

Através de reencarnações pungentes, dolorosas, o homem de Kerioth resgatou o delito tremendo, e retornou ao colégio Galileu, ele que era o mais inteligente, o único judeu, após sofrer o martírio como Joana d’Arc.

Livro: “Vivendo Com Jesus” – Psicografia: Divaldo Pereira Franco – Pelo Espírito: Amélia Rodrigues – Capítulo 21

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