Marcha gradativa do Espiritismo – Allan Kardec

Caros condiscípulos, o que é verdade tem que ser; nada pode opor-se à  irradiação de uma verdade; às vezes, podem encobri-la, torturá-la e fazer com ela o que fazem os teredens nos diques holandeses; mas, uma verdade não assenta sobre estacarias: ela percorre o espaço; está no ar ambiente e, se foi possível cegarem uma geração, há sempre novas encarnações, há recrutas da erraticidade que trazem germens fecundos, e outros elementos, e que sabem atrair a si todas as grandes coisas desconhecidas. 
Não vos apresseis, amigos. Muitos dentre vós desejariam ir a vapor e, nestes tempos de eletricidade, correr tanto quanto esta. Esquecidos das leis da Natureza, quereriam andar mais depressa do que o tempo. Refleti, porém, e vereis quão sábio é Deus em tudo. Os elementos que constituem o vosso planeta sofreram longa e laboriosa elaboração; antes que pudésseis existir, foi preciso que tudo se constituísse de acordo com a aptidão dos vossos órgãos. A matéria,
os minerais, fundidos e refundidos, os gases, os vegetais, pouco a pouco se harmonizaram e condensaram, a fim de permitirem que surgísseis na Terra. É a eterna lei do trabalho, que nunca cessou de reger os seres inorgânicos, como
os seres inteligentes.
O Espiritismo não pode fugir a essa lei, à lei da elaboração. Plantado num solo ingrato, forçoso é que o cerquem as ervas más e os maus frutos. Mas, também, todos os dias o terreno é desbravado, os maus ramos são arrancados ou
cortados; o campo se destorroa insensivelmente e, quando o viajante, fatigado das lutas da vida, encontrar a fartura e a paz à sombra de um fresco oásis, se dessedentará e enxugará o suor, nesse reino lenta e sabiamente preparado. Aí o
rei é Deus, o dispensador generoso, o igualitário judicioso, que bem sabe ser doloroso, mas fecundo, o trajeto que o viajor seguirá; penoso, mas necessário. O Espírito formado na escola do trabalho dela sai mais forte e mais apto para
as grandes coisas. Aos que desfalecem, ele diz: coragem e, como suprema esperança, lhes deixa entrever, mesmo aos mais ingratos, um ponto de chegada, ponto salutar, caminho assinalado pelas reencarnações.
Ride das declamações vãs; deixai que falem os dissidentes, que berrem os que não podem consolar-se de não serem os primeiros; todo esse arruído não impedirá que o Espiritismo prossiga imperturbavelmente o seu caminho.
Ele é uma verdade e, qual rio, toda verdade tem que seguir seu curso.

Obras Póstumas. FEB. pg. 328

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