O Que Foi e o Que É

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O Espírito da Verdade esclarece o passado em função do presente, e este em função do futuro ­­ A compreensão espírita em face dos textos antigos e suas dificuldades.

A insistência de alguns confrades no combate ao “biblismo” no meio espírita tem o seu lado louvável. Também é louvável a insistência dos que combatem o “evangelismo” de tipo protestante, que parece invadir numerosos Centros. Todo apego aos velhos textos não se justifica, diante dos novos, que nos foram legados por Kardec, sob a orientação do Espírito da Verdade. O Espiritismo que se enfeita de exageros bíblicos ou evangélicos está nas condições do remendo de pano novo, que se quer aplicar ao pano velho. Mas isso não quer dizer, evidentemente, que se deva atirar ao lixo o pano velho.

Todo exagero é condenável, por conduzir infalivelmente ao erro. Consideramos, portanto, errados em sua posição doutrinária, tanto os que condenam a Bíblia como pano velho e imprestável, quanto os que a consideram como “a palavra de Deus”. Kardec é o primeiro a nos dar exemplo da atitude que devemos tomar em face da Bíblia. Basta-nos a leitura dos seus livros, para compreendermos que ele não ia tanto ao mar, nem tanto à terra. Nisso, como em tudo, sua atitude era sensata, equilibrada, serena, compreensiva e, sobretudo, natural.

O espírita está de posse de uma doutrina que esclarece todos os problemas humanos, que lança uma luz bastante clara sobre a história, e que exatamente por isso não lhe permite atitudes extremadas. Ali onde os outros não vêem senão um aspecto, um lado da coisa analisada, o espírita tem obrigação de ver mais, de enxergar mais fundo. No caso da Bíblia e do Evangelho essa obrigação se torna ainda maior, pois essas duas codificações referentes a duas revelações que antecederam a espírita, representam fases fundamentais da preparação do Espiritismo. Temos o direito, e até mesmo dever, de analisar os textos antigos. Mas não temos o direito de procurar destruí los ou negá los.

Pedra de Alicerce

Nada mais fácil do que encontrar erros históricos e contradições nos textos antigos.

Muita tinta e muito papel já se gastou com isso, principalmente no caso da Bíblia.

Mas nem a Bíblia, nem outros textos submetidos a esse processo  de análise agressiva, tiveram o seu prestígio diminuído, ou sequer arranhado. A força de livros como a Bíblia não está no seu conteúdo racional, na sua coerência histórica ou na sua coerência moral e religiosa. Está na tradição e no sopro espiritual que lhes impregnam as páginas.

O leitor da Bíblia repele as análises modernas como heréticas,  e mais fundamente se apega ao seu livro. O mesmo se dá com os textos evangélicos: quanto mais combatidos, mais se impuseram no mundo. Porque todos esses textos foram feitos para falar mais ao coração do que à razão, para despertar antes a alma do que a mente. E cumpriram e cumprem a sua missão na terra, apesar de toda a incompreensão dos que  os combatem.

Alguns intelectuais espíritas, e entre eles os meus prezados amigos Carlos Imbassahy e Mário Cavalcanti de Melo, representantes da “Escola  de Niterói”, que é uma escola voltaireana de Espiritismo, entendem que precisamos acabar com o “biblismo” e o “evangelismo” no meio espírita. Outros entendem, por outro lado que precisamos de mais Bíblia e mais Evangelho.

Parece-­me que são duas posições extremas, e por isso mesmo contrárias ao espírito de compreensão da doutrina.

O Espiritismo nasceu cristão, fundamentado nos Evangelhos, como vemos desde O Livro dos Espíritos, e tendo a Bíblia como o seu mais profundo fundamento, como a pedra mais funda do seu alicerce. Está claro que a pedra do alicerce deve ficar ali, como base. Mas, que podemos esperar, se começarmos a cavar a terra e ferir a pedra, com a intenção de destruí la?

Violência Anti­-Bíblica.

Diz o confrade Cavalcanti de Mello, em seu livro Da Bíblia aos nossos dias, página 311: “Pode ser que este livro, a Bíblia, servisse a um povo ignorante e inculto; mas, para nós, em pleno século XX, está enquadrado entre os muitos contos infantis, como a estória da Carochinha.  E aqui ficamos, leitores, não querendo tocar mais nas imoralidades consignadas no Velho Testamento e tão injustamente atribuídas a Jeová e a Moisés, numa infâmia multimilenar, mantida pelos ignorantes”.

Já se viu maior violência? A Bíblia é considerada como uma  “infâmia multimilenar”, e o que é pior, “mantida pelos ignorantes”. Todo leitor da Bíblia, portanto, é ignorante, a menos que a leia para combater e negar.  E todos os que contribuíram para que se realizasse, há milênios, a codificação bíblica, nada mais foram do que infames e infamantes.

A aceitarmos isso, teríamos de considerar ignorante o próprio Kardec, que se deu ao trabalho de citar a Bíblia como a l Revelação. Além do mais, estaríamos negando o poder de esclarecimento da doutrina espírita, cuja função não é somente aclarar o futuro, mas também o  passado e o presente.

No capítulo VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Instruções dos Espíritos”, item 18, diz o espírito de João  Evangelista: “Meus bem­ amados, já estamos naqueles tempos em que os erros explicados se transformam em verdade. Nós mostraremos a correlação poderosa que une o que foi e o que é. Em verdade vos digo: a manifestação espírita alarga os horizontes, e aqui está o seu enviado, que vai resplandecer como um sol por cima dos montes”.

A correlação poderosa.

Essa é a atitude espírita em face dos textos antigos, especialmente da Bíblia e dos evangelhos. Sabemos que são textos de um passado longínquo, e não podemos sensatamente interpretá ­los ou critica los como se tivessem sido escritos em nossos dias. A manifestação espírita alarga os horizontes e nos faz enxergar além dos limites estreitos do presente. Os Espíritos do Senhor se manifestaram e se manifestam para nos ajudarem a transformar os erros em verdades, estabelecendo a correlação poderosa entre o que foi e o que é. Querer negar o que foi, sustentar apenas o que é, parece-­nos absurdo. É como querer cortar uma árvore pelas raízes e esperar que ela continue a nos alimentar com seus frutos.

A Bíblia, como os Evangelhos e como outros textos religiosos da antiguidade, são os marcos da evolução espiritual da Terra. É claro que não podemos encontrar num marco praticamente inicial, como a Bíblia, a  mesma pureza que vamos encontrar nos Evangelhos ou na codificação espírita. Mas não é justo que condenemos aquilo que não compreendemos hoje, e que representou um impulso e um valor no seu tempo, muito  distante de nós. Todos os espíritas conhecem a lei de evolução. Como, então, não colocarmos a Bíblia em seu exato lugar, na evolução espiritual  da Terra, e preferirmos acusa ­la de infâmias e imoralidades que só existem aos nossos olhos? Procuremos, antes, como o fazia Kardec, estabelecer a “correlação poderosa” a que aludiu o espírito de João Evangelista.

(Livro: Visão Espírita da Bíblia – José Herculano Pires (1914 – 1979) – Capítulo 32)

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