Jesus e Paciência

Jesus e Paciênciaflores no caminho - livro

As opiniões desencontradas aturdiam os mais afer-vorados companheiros da Mensagem Renovadora.

 

Comentava-se quanto à necessidade de a revolução cristã triunfar, derrubando a Casa Senhorial de César e distendendo suas forças por toda a parte, tornando Israel a soberana, conforme os anúncios antigos.

 

Ferviam as paixões entusiasmando os sentimentos e perturbando as mentes.

 

Em todo lugar pessoas que se criam credenciadas transformavam-se  em informantes insensatos, gerando embaraços injustificáveis para o ministério do amor. . .

 

Enquanto a frivolidade desenfreada se encarregava de  conduzir nimbos precursores de tempestades, o Rabi prosseguia impertérrito na ensementação da Mensagem no solo dos corações.

 

Transitando pelas estradas ou nas praias formosas, entre crepúsculos ardentes e apaixonados, Sua misericórdia distendia as mãos do auxílio e do esclarecimento sem que Ele se deixasse impressionar  pelo  tumulto em crescimento ameaçador.

 

A Galiléia bucólica e simples fascinava-Lhe a alma sensível.

 

As pessoas modestas e afáveis cujos problemas se resumiam às questões da sobrevivência, ofereciam ao Rabi a alegria de diminuir- lhes as preocupações.

 

A Judéia, no entanto, áspera e adusta se repletava de problemas e dificuldades entre as tricas farisaicas e as conjunturas infelizes da política insensata e avara.

 

Peregrinando pelas terras verdes dos galileus, Seu verbo iluminado cantara o Sermão da montanha e as Suas lições se fizeram repassadas de meiguice quanto de esperança.

 

Ali levantara moribundos e mantivera viva a chama do amor, no país dos sentimentos humildes, favorecendo-os com o alento em torno de um amanhã ditoso.

 

Todavia, na difícil região dos judeus, não obstante o Seu amor incansável, as ciladas armavam problemas e a astúcia elaborava sofismas com que se pretendia surpreendê-10 em algum equívoco diante dos dispositivos do Estatuto Legal. ..

 

Continuando fiel ao programa que o Pai Lhe traçara, Ele se fizera o apoio e a segurança dos fracos, a resistência dos tíbios, à medida que a mensagem refulgia nas paisagens ermas dos que haviam tombado na descrença.

 

Após o atendimento da multidão sempre ávida e necessitada, enquanto a terra ardia, ao cair do velário da noite, Simão buscou-O inquieto, certa vez, não ocultando as apreensões. . .

 

A ressurreição de Lázaro levantara os ânimos contra Ele e a promessa  de que demoliría o Templo e o reergueria em três dias havia chocado os que buscavam motivo para a perseguição.

 

Em estado de espírito inquieto, o velho amigo acercou-se do Rabi sereno sob gentil pérgula arrebentada em flores e foi direto ao assunto:

 

  • Senhor, como proceder diante das ameaças que nos chegam, levando-nos a receios justificáveis quanto ao futuro do Evangelho?

 

  • Tendo paciência, Simão — respondeu, tranquilo,

 

  • Devemos, então, aguardar a agressão, sem tomarmos qualquer iniciativa? — voltou a inquirir o

 

  • Sim — elucidou o Mestre. — Edificando a paciência em nós mesmos, não nos cumpre assumir outra atitude senão A paciência dar-nos-á inspiração e força para agir com discernimento e sem precipitação.

 

  • Mas, Senhor — arguiu o companheiro que sobremostrava surda irritação, — não seria lícito que se instalasse o reino de Deus de imediato e a revolução

 

que pregas tivesse início? Talvez, quando se tomem providências, seja tarde demais, não Te parece?

 

Jesus fitou o Céu de turquesa cravejado de círios estelares e sem perder a serenidade esclareceu:

 

  • Com paciência conseguiremos provar a excelência da nossa luta. Os lutadores do mundo são desesperados, passam em atroada ensurdecedora, destróem e ameaçam, semeando ódios e lutas sem qualquer razão. A paciência prova o homem e comprova-lhe os  valores ante as vicissitudes que deve

 

  • Não duvido, — anuiu o pescador, acrescentando — parece-me que a resistência pacífica levar-nos-á à queda, destruindo as aspirações superiores que acalentamos. Como agir ante  os  que  nos  provocam  ao combate urgente?

 

  • Atuando com paciência.

 

  • Se as circunstâncias nos parecem favoráveis e postergamos, não estaremos adiando indefinidamente o compromisso?

 

Perpassavam pelos ares perfumados nos cenários formosos as bênçãos divinas, enquanto as onomatopéias murmuravam uma sinfonia acalentadora em derredor.

 

Relanceando o olhar pela noite em triunfo o Rabi contestou:

 

  • O Sol incansável devora a noite cada manhã, enquanto ela, paciente, retorna, diminuindo o calor do dia, mil vezes, sem cansaço.

 

  • Será lícito, então, não reagir nunca — insistiu Pedro, — mesmo que confortados pela razão, estejamos a ponto de não suportar mais?

 

  • Sem dúvida, Pedro. A paciência harmoniza e reconforta, porquanto o Pai não tem pressa e prossegue trabalhando até hoje, enquanto eu também

 

Com paciência a agressão passa, a dificuldade muda de lugar, o problema se resolve, o sofrimento se transfere, as incompreensões se aclaram, as lutas se pacificam e o amor triunfa.

 

A paciência é bênção de Deus pelo caminho por onde avançamos.

 

Confiemos e esperemos. A paciência nos dará a palma da paz a benefício de nós mesmos.

 

Silenciou o Rabi, enquanto o relógio do tempo continuava a trajetória da Eternidade.

 

Dias após ter entrado em triunfo em Jerusalém, paciente, Ele provou o fel da traição, da amargura, da soledade, e, na Cruz, com paciência, alcançou  a  plenitude  da  vitória  como  Herói  Invencível  de  todos  os tempos, esperando por nós.

 

***

 

Relâmpago fulgurante em noite escura, a palavra do Mestre cindia a noite demorada que tombava sobre Israel, desde há cinco séculos.

 

O eco da mensagem, doce e enérgica, se espraiava desde as planuras do Esdrelon até aos altiplanos do Hermon. . .

 

Aqueles que Lhe escutavam o verbo, renovavam-se e a nobre cantilena das Suas palavras prosseguia

 

repercutindo no ádito das almas, sendo transferida de boca a ouvido, assinalando o início da comunicação elevada pelo impregnar do amor.

 

Aqueles dias, naquelas circunstâncias, jamais se fariam repetir e o conteúdo das Suas palavras nunca mais seria ouvido da forma como foi enunciado e vivido.. .

 

A multidão já se houvera dispersado, permanecendo as estrelas coruscantes pontilhando o velário da noite com os seus focos reluzentes.

 

Sopravam as brisas trazidas pelas aragens do mar, amenizando a paisagem do dia que fora ardente. . .

 

As criaturas atendidas, que haviam encontrado diretriz, trouxeram novos candidatos ao Amigo Divino, que não cessava de os socorrer.

 

Após a estafante jornada das horas passadas, o Rabi afastou-se para uma parte solitária da praia e mergulhou em profundo cismar.

 

O silêncio, que se fazia interrompido pelas onomatopeias da Natureza, tornara-se moldura viva na qual a figura do Mestre se destacava, irradiando diamantina claridade.

 

Sem que fosse percebida, uma mulher acercou-se de Jesus, e, após fazer-se notar por Ele, desculpou-se da imprudência de perturbá-lO.

 

Sem mais delongas O interrogou:

 

— Sei que tu vens de Deus e posso perceber-Te a grandeza que me fascina e emociona. . . Tenho sede de amor e me encontro corroída pela vérmina da animalidade. Tenho amado e não logrei a honra de fruir o amor. A vida, desde há muitos anos, em    que fui dilapidada nos meus

 

sentimentos de mulher, nega-me o que venho procurando: a paz, que parece fugir de mim, onde quer que eu me encontre.

 

“Que fazer, Senhor, para viver a felicidade?”

 

Havia na voz da estranha notas características de melancolia e de sofrimento demorado que as palavras não conseguiam exteriorizar.

 

O Mestre relanceou o olhar transparente pela paisagem aureolada de paz, e indagou-lhe por sua vez:

 

— Que vês em derredor? Examina a terra arrebentando-se em flores, frutos e verdor; o rio cantante, enriquecendo as margens de vida; o húmus discreto renovando o subsolo e os astros fulgurando ao longe.  .

. Em tudo, a ordem, o amor, a transparência da misericórdia do Pai, ensinando equilíbrio e vida.

 

“O que parece caos transforma-se em bênção, o que aparenta transtorno se converte em paz, porque em tudo vige a sabedoria do Criador.

 

“Não relaciones dores nem apresentes mágoas. “Levanta o olhar para cima e avança para o futuro.”

A criatura, surpreendida pela resposta amorosa, volveu à interrogação:

 

  • Compreendo, sim, a grandeza da divina criação, não obstante delinqüi, e, do meu delito, nasceu-me um filho, que no momento constitui-me motivo de inquietação e desespero. . .

 

Sem permitir-lhe alongar-se, o Senhor prosseguiu, imperturbável:

 

  • A mulher é sempre mãe.

 

“A relva que cresce sobre os escombros oculta as suas deformidades e disfarça as suas imperfeições, modificando a erma expressão dos destroços.

 

“Abençoada pela maternidade, que é sempre dádiva do Pai, honrando a vida, um filho, em qualquer circunstância, é uma estrela engastada  na carne, com a oportunidade de espalhar claridade pelo caminho.

 

“Enquanto houver crianças e mães, na Terra, o amor divino estará cantando esperanças para a Humanidade.

 

“Não há filho do pecado nem do delito, pois que todos eles são  dádivas da vida à vida.

 

“Esquece as circunstâncias da chegada do querubim que te bate  à porta do sentimento, e levanta-te com ele, avançando no rumo do infinito dos astros.”

 

Uma imensa serenidade vestia a Natureza.

 

A mulher-mãe, emocionada, procurou os olhos de Jesus por entre a visão nublada de lágrimas e fundiu-se na luminosidade que deles fluía dúlcida e pura.

 

Levantou-se em discreta reverência e preparou-se para sair.

 

Não saberia dizer se O ouviu falar ou se O escutou na acústica da  alma.

 

— Vai, filha, e ama.

 

“A maternidade é a mais elevada concessão de Nosso Pai, demonstrando que o mal jamais triunfará no mundo; porque enquanto houver um coração, um sentimento maternal, na Terra, o amor ateará o fogo purificador e a esperança de felicidade jamais se fanará…”

 

No longe do tempo, ecoariam os conceitos do Filho de Maria, a Mãe por Excelência, sustentando a mulher no ministério da  maternidade por todo o sempre.

(Livro: Há Flores No Caminho – Psicografia: Divaldo P. Franco – Pelo Espírito: Amélia Rodrigues – Capítulo 04)

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