Os 4 Cavaleiros do Apocalipse – Estudo à Luz do Espiritismo

Apocalipse, 6

São esses os quatro famosos cavaleiros do Apocalipse, que tantas produções têm inspirado, no campo das artes e da literatura de ficção. 

Notemos que há correspondência entre a ordem dos seres viventes e os cavaleiros, exceção do primeiro cavaleiro, que foi mostrado por “um dos seres viventes” e não pelo quarto, pelo terceiro, ou pelo segundo, como aconteceu com os demais seres viventes. É que o primeiro foi naturalmente mostrado pelo primeiro ser vivente, isto é, o que tem feições de “leão” (v. significado de “leão”). Nenhum estado leonino, como aquele contra o qual o Cristo investiu, ou seja, o Estado Romano, existe a esmo, isto é, despido de bases institucionais legais. O que lhes dá personalidade política e jurídica são suas próprias instituições fundamentadas no Direito e nas leis daí decorrentes. Mas como as naturezas humanas são ainda involuídas, proporcionais naturalmente aos graus sensíveis da grande maioria solicitadora de leis também equivalentes, o Direito e suas regras são formulados tendo por fundamento as mesmas naturezas. Sendo estas competitivas e não fraternas, esse Direito refere-se aos costumes competitivos, obviamente imperantes em todo o mundo. Ele apenas formula as regras do jogo, às quais têm os competidores de se condicionar. As leis procuram propiciar o máximo de justiça ao seu alcance, estendendo-a a todos os concidadãos co-partícipes da estrutura estatal; mas só atingem um certo limite, dado que não podem ultrapassar o espírito competitivo inerente aos costumes dentro dos quais elas foram formuladas. Daí as injustiças sociais em função das quais o direito de acesso às fontes de subsistência não é igual para todos, do que decorre a existência das classes sociais embasadas no poder econômico. Contrariamente ao fraternismo contido no Cristianismo genuíno, onde a hierarquia, de indivíduo para indivíduo, se mede pelas condições intrínsecas dos respectivos graus sensíveis, donde o poder de liderança moral dos mais evoluídos sobre os menos evoluídos, as graduações no Direito fundamentado nos costumes romanos, dos quais somos êmulos, mantêm soltas as rédeas dos que possuem as riquezas materiais. Com estas, compra-se tudo, inclusive o saber humanístico, com o qual se conquistam posições sociais de relevo. Nessas diferenças reside a disparidade do Direito sob normas cristãs, de um lado, e, do outro o Direito romano, no qual se embasa o Direito que rege a civilização atual. Este terá, pois, de evoluir no sentido do primeiro Direito, obviamente ainda inexistente. 

Como na Bíblia tudo que possui a cor branca significa o que é justo, ou que procura andar dentro da justiça, o primeiro cavalo é branco. O seu cavaleiro, embora coroado e, assim, todado de poder, empunha um arco, porém, sem flecha. Não é, portanto, um guerreiro destinado ao terreno executivo, mas somente legislativo. Trata-se, pois, do Direito Romano que, com suas leis prescritoras de deveres e regalias de cidadãos e coletividades, constitui o fundamento de todas as regras do Direito atual, produto do primeiro. Assim, todas as normas dos relacionamentos inter-humanos, na construção da civilização que Cristo tentou modificar, não se modificaram, prosseguindo até nossos dias, como se vê da necessidade ainda imperante desse Direito, todo ele proporcional, na aplicação das leis, aos graus sensíveis da universalidade dos homens.

O método de aplicação de suas regras ainda é o mesmo das origens romanas: acusação, defesa e resultado expresso no julgamento final. Expressa-se, aliás, de acordo com o nosso “modus operandi” : “ação” (acusação); “reação” (defesa); “consequência” (julgamento e sentença final). Ou ainda: “ação”, “consequência”, e “retorno” sobre o paciente daquilo que as leis prescrevem como mérito ou demérito. E como se vê, a justiça aplicada em função desse Direito é falha, até mesmo no seu símbolo de uma mulher de olhos vendados, isto é, cega, dado que tanto “acusação” quanto “defesa” podem-se modificar por meio de artimanhas dos interessados, do que resultam méritos para quem não os tem, ou deméritos para quem tem méritos. Trata-se, portanto, de um Direito e de uma Justiça que não penetra o âmago dos espíritos nas suas intenções e na moralidade que os anima, dado que permanece na superficialidade dos dados processuais, às vezes vulneráveis em função das artimanhas. Embora, pois, as instituições jurídicas afetas à aplicação da Justiça embasada no Direito originário de Roma mereçam todo o nosso respeito fundamentado na necessidade de sua existência como estágio no caminho evolutivo do homem, não podemos – data venia – escapar à franqueza destas críticas, que, na realidade, não são nossas, mas do Cristo por nós visto no Apocalipse. Se quiserem contraditá-lO, isto corre por conta de quem o fizer.

Em Cristo, o Direito embasar-se-á na honestidade de cada um, independentemente do julgamento de terceiros a tecerem suas sentenças. Se a sistemática (ou Lei), pela minha consciência moral, indica-me, nos meus registos, aquilo que pratiquei contrariamente ao meu semelhante, ferindo, assim, a harmonia do Todo, eu mesmo é que me julgo, sincera e honestamente sob os ditames de minha própria consciência, cabendo-me enfrentar com dignidade as consequências dos meus atos, “pagando” à Lei aquilo que Lhe devo. Daí a sentença do Cristo: “Não julgueis para não serdes julgados”. Tudo se firma, pois, na sinceridade honesta e desassombrada – notemos bem: seguindo o Cristo – face às consequências dos nossos comportamentos.

 

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O segundo cavalo  e o seu cavaleiro por si mesmos se explicam: o cavalo é vermelho, da cor do sangue, e, por intermédio do seu cavaleiro, foi dado tirar a paz de entre os homens, no que se contém a matança de uns pelos outros, individual ou coletivamente considerando. Para isto, foi-lhe entregue uma grande espada, cujo significado, como já vimos, não é apenas o da arma que traspassa e assassina, mas também o de língua, de argumentos que precedem os assassinatos à espada. Evidentemente este cavaleiro, por estar armado, é que serve de suporte ao primeiro. São as instituições milicianas.

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O terceiro cavalo, é negro, da cor do luto, e o seu cavaleiro conduz uma balança, naturalmente que aferidora da Justiça que deveria existir entre os homens, isto é: “A cada um, segundo suas obras”. E dissemos “deveria”, porquanto, se o cavalo é negro, ele não porta uma Justiça iluminada pelas verdades da Lei, mas destinada a equilibrar as contendas  originadas dos egoísmos e da cobiça. É ele, pois, o comércio, no qual os homens adquirem seus meios de vida; não em trocas justas, medidas pela balança, em que cada mercadoria valha o seu preço real, correspondente à sua manufatura, transporte, etc., mas aquele em que a mercadoria é sempre onerada pela cobiça do vendedor. Disso resulta a riqueza de uns em detrimento de outros; o luxo e o conforto contrastando com  penúria e fome, do outro lado. Por isso foi que, precisamente do meio das referidas criaturas viventes, surgiu uma voz estipulando não apenas o preço dos alimentos, mas recomendando também não danificar o azeite e o vinho, que, além de alimentos, eram usados também como remédios ao tempo do Cristo. “E chegando” – disse São Lucas, X, 34 –  “pensou-lhe os ferimentos, aplicando óleo e vinho; e colocando-o sobre seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele”.

Vigendo o primeiro cavaleiro a permitir o comércio sem limitação de lucros, que deveriam corresponder estritamente ao pagamento da mão de obra do vendedor, a exploração do homem pelo homem vem exercitando a ambição e o domínio de uns sobre os outros pelo poder econômico, transformando o mundo numa arena de gladiadores, isto é, um mundo materializado e, portanto, anticristão.

a História tem comprovada a inocuidade das guerras e do golpes de classes, tudo originado do espírito competitivo herdado dos costumes romanos do passado. E essa inocuidade explica-se na continuidade da perseguição às riquezas sob a forma de lucros, costume com que também os semitas do passado, especificamente os fenícios, contaminaram as antigas correntes da civilização. O Cristianismo genuíno, sob a égide de um espírito como o do Cristo, integrado nas verdades verdadeiras do Universo, não poderia senão bater-se pela eliminação de costumes dessa natureza. “A César o que é de César” significa: ao Estado o que é do Estado, como instituição de todos, no plano material ou moral (porque a Lei é uma só), mas a cada um “segundo o que fizer”. Tais foram o ensino e o exemplo legado à humanidade por Aquele que “não tinha uma pedra onde reclinar a cabeça”.

Não havia necessidade de Marx ter escrito tanto para provar as injustiças econômicas do mundo e, além disso, procurando destruir o espírito. Bastava-lhe uma leitura meditada da Bíblia, onde a justiça social não se fundamenta na dureza de um materialismo que se propõe transformar o homem numa peça da máquina estatal, porém, no único princípio capaz de servir de base a uma sociedade fraterna e feliz: a caridade recíproca, obviamente banhada do respeito mútuo.

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O quarto cavaleiro  tem o nome específico de “morte”.

Se vivemos nas concepções atinentes aos costumes ditados pelos três primeiros, é evidente que estamos mortos em relação às concepções amorosas, próprias de uma civilização fraterna. Não vivemos, portanto, os graus elevados dos espíritos “refinados”, provados pela desilusões em relação à vida animalizada do mundo, sem as quais somos ainda incapazes de compreender as dores dos semelhantes. Involuídos, somos ainda seres infernais, uns para com os outros, vale dizer: mortos para o amor fraternal. Tal cavaleiro, pois, é o Inferno retratado na vida terrena, onde somas gigantescas são empregadas na fabricação de instrumentos destinados e cientificamente (!) idealizados no sentido do assassínio dos semelhantes – individual ou coletivamente considerando – ao passo que milhares de “co-irmãos” morrem, a cada ano, de subnutrição e de fome, sem jamais fruir o mínimo das necessidades vitais, que, a outros, transbordam sob a forma de regalias e confortos.

A vidência explica que tal cavaleiro possui autoridade para matar a quarta parte da terra, vale dizer, da “humanidade involuída”. De fato, pelos sofrimentos e desilusões por ele propiciados, mata, para as coisas do mundo, aqueles que as experimentam, seja isto “à espada” (pelas armas), “pela fome” (privações de ordem econômica), ou “por meio das feras da terra”, isto é, por meio das feras humanas, integrantes – lamentavelmente – da humanidade involuída, em graus de selvageria muito acima dos animais predadores, ou das víboras e cascavéis, que apenas ferem e matam para comer, ou em “legítima” defesa.

É muito raro um homem ser morto por animais selvagens; mas, pelas mãos das feras humanas, que o digam as estatísticas criminais e as das guerras. É isto, quando as feras chegam, na objetivação dos assassínios, a essas formas de objetivação da sua ferocidade. Há muitas formas de “matar”, isto é, de propiciar redenção pelas dores e desilusões das quais a justiça humana não toma conhecimento: são as perseguições, as ingratidões, o ódio sorrateiro, a incompreensão, os vilipêndios, as traições, que, nos martírios de cada minuto propiciados às suas vítimas, “matam” tanto quanto as agressões físicas.

Vemos, assim, como a Bíblia, na sua filosofia de expressões sumárias, define, com precisão admirável, os caracteres da nossa civilização, toda decorrente do nível geral dos graus sensíveis dos espíritos de que é feita.

Num talmude de regras, considerações e comentários que enchem volumes polpudos a superlotarem as bibliotecas, filósofos, religiosos, sociólogos, enfim, pensadores da espécie variável dedicada a esses assuntos, têm-se esforçado em vão para explicarem o homem, as razões dos seus males e as razões da vida, procurando apontar os caminhos consentâneos a evitá-los – os males – ou, quando nada, dirimi-los. A Bíblia, no entanto, em quatro textos de poucas linhas, explicou tudo o que se fazia necessário a respeito. O muito falar – já o dissemos – nada explica, nada define. Necessário é irmos às raízes centrais dos fatos, sem o que jamais conseguiremos formar uma concepção sumária, na visão unitária do Universo e suas causas.

J. Rodrigues Lellis – O Apocalipse e o 3º Caminho

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