A Mulher Cananéia

Mat. 15:21-28

Neste episódio, observamos que Jesus se dirige para noroeste, penetrando o território da Fenícia, país não-israelita, na região de Tiro e Sidon. Mateus emprega o termo mere (uma parte) e Marcos usa horia, fronteira de um estado, município ou distrito. 

A fama de Jesus já atingira essa região, tanto que se diz (cfr. Marc. 3:8) que peregrinos dessas duas cidades O foram ouvir à margem do lago.

A ida de Jesus não se prende à pregação da Boa-Nova, tanto que seu desejo era permanecer incógnito na casa de algum amigo, para conversar com seus discípulos na intimidade, longe do apelo das multidões. Parece tê-lo conseguido, pois só é mencionado esse fato da mãe aflita que obtém a cura da filha .

 

Essa mulher é dita “cananéia” por Mateus, tendo em vista que nesse território foi estabelecida a primeira colônia de cananeus (cfr. Gên. 10: 15). Marcos qualifica-a tecnicamente de siro-fenícia, ou seja, fenícia da Síria (distinguindo-a dos fenícios da Líbia). Realmente, desde a conquista de Pompeu, a antiga Fenícia fora englobada na província romana da Síria. Marcos, que escrevia para os romanos, entra em maiores minúcias étnicas e geográficas, coisa supérflua para Mateus que, escrevendo para os israelitas, se satisfaz denominando-a “cananéia”. Não obstante, como poderia tratar-se de uma israelita, embora nascida em país “pagão”, o segundo evangelista especifica que ela era hellenís, isto é, “de fala grega”. Com esse termo, a essa época, distinguiam-se os não-israelitas, já que, para os israelitas, o mundo se dividia em duas partes: judeus e não-judeus (pagãos ou gentios). Temos, portanto, o caso de uma criatura de religião diferente da que Jesus professava oficialmente (tal como o centurião romano). Nem por isso o Mestre a convida, sequer, a filiar-se ao judaísmo: para Ele, todos são filhos do mesmo Pai.

Mateus reproduz o primeiro apelo. Inicia a mulher suplicando compaixão para ela, já que a filha talvez fosse inconsciente do que com ela se passava: a mãe é que mais sofria com o caso.

Compreende-se o título de “Senhor”, mas é estranhável o epíteto de “Filho de David”, na boca de uma pagã, mesmo que Sua fama tivesse já atravessado as fronteiras com esse apelativo.

Logo após é citado o motivo do pedido de socorro: achava-se sua filha (não é revelada a idade, embora Marcos use o diminutivo: thygátrion, “filhinha”), sofrendo de forte obsessão (talvez mesmo possessão total) e ela suplica o rabbi que a cure. A semelhança do centurião (cfr. Mat. 8:5-13, Luc. 7: 1-10; ver vol. 3, pág. 6), ela solicita uma cura a distância, revelando um  adiantamento evolutivo bem grande que virá a ser comprovado pela continuação, com suas palavras de humildade sincera.

Agostinho (Quaestiones Evangelicae, 1,18, in Patrol. Lat. vol. 35, col. 1327) faz a mesma observação, concluindo: “as duas curas milagrosas que Jesus realizou, nessa menina e no servo do centurião, sem entrar em suas casas, são a figura de que as nações (os gentios) seriam salvos por força de sua palavra, sem serem honrados, como os judeus, com sua visita”.

Jesus, que lá fora para descansar, apresenta um comportamento estranho, só explicável pelo desejo que tinha de demonstrar aos circunstantes, e deixar exemplo aos porvindouros, de como deve alguém comportar-se diante do não-atendimento de um pedido (de uma prece). Então, nada responde: continua impertérrito a caminhada, não tendo a mínima consideração ou, como diz o povo, “não dando confiança”.

A primeira reação da pedinte é insistir na solicitação (cfr. Luc. 11:5-8), sem julgar-se diminuída nem ofendida com o silêncio, que parece depreciativo.

Aí ocorre a intervenção dos discípulos, que sugerem ao Mestre mandá-Ia embora, atendida ou não; e isso, não por amor a ela, mas para não serem incomodados. O princípio da “intercessão” está bem claramente estabelecido, aqui como em outros passos, embora apresente sempre esse ar de enfado, e o pedido intercessório seja sempre para mandar embora o importuno, ou de faze-lo calar-se … Observe-se, de fato, o pormenor de jamais encontrarmos nos Evangelhos qualquer discípulo solicitando ao Mestre a realização de um fato extraordinário em benefício de quem quer que fosse (nem deles mesmos). Ao contrário, quando qualquer ocasião se apresentava de situação difícil, ou eles sugeriam uma solução normal, ou declaravam não ser possível resolvê-la, deixando o Mestre isento de compromisso.

Jesus continuava ignorando a pedinte, e responde-lhe apenas indiretamente, falando a seus discípulos, como se ela ali não estivesse: “fui enviado somente para as ovelhas perdidas da casa de Israel” .

Resistindo ao silêncio, superando a primeira negativa com humildade. ela insiste: “socorre-me, Senhor !” . A confiança permanecia vívida, firme, sólida e inabalável, É então que Jesus, levando até o fim a experiência, desfere o terceiro golpe, forte bastante para descoroçoar qualquer esperança, bastante fundo para arrasar os últimos resquícios do orgulho: “Não é bom tomar o pão dos filhos, para dá-lo aos cachorrinhos”…

Vencendo a terceira negativa, numa demonstração de humildade sem hipocrisia, revelando de todo sua evolução, a estrangeira retruca com belíssima imagem, brilhante e literária, talvez com leve e alegre sorriso de esperança a bailar-lhe nos lábios: “mas os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas que as crianças deixam cair”…

Impossível resistir-lhe mais! A humildade sincera vencera, segundo o princípio enunciado 600 anos antes pelo “Velho Mestre” (Lao Tse) no Tao Te King: “A doçura triunfa da dureza, a fraqueza triunfa da força” (n.º 36). Realmente, a Força é vencida pela fraqueza, cede o Poder diante da impotência, curva-se o Super-Homem diante da fragilidade feminina: a mãe é atendida, beneficiando-se a filha da amplitude ilimitada do amor materno.

Resta-nos, apenas, analisar o epíteto de “cachorrinhos” (kynária) aplicado por Jesus à mãe cananéia. Jerônimo afirma que Jesus classifica os não judeus de “cães” (canes autem éthnici propter idololatriam dicuntur, Patrol. Lat. vol. 26, col. 110).

Não cremos tenha sido esta a intenção de Jesus, que seria inoportuna e ofensiva, denotando baixeza de caráter e falta da mais elementar educação, em relação a uma mãe aflita. Não podemos aceitar, inclusive, porque o elogio posterior desmentiria essa intenção. Se real fosse, o orgulho que lhe haveria provocado tal resposta fá-lo-ia manter sua atitude de desprezo até o fim, o que seria incompatível com Sua elevação espiritual.

O que se deduz de todo o andamento e do diminutivo “cachorrinhos”, é que a frase foi dita com benevolente sorriso, como que a desculpar-se, mas desejando ser vencido, como o foi, para atendê-la.

Além disso, não é uma depreciação, como se a comparasse a um “vira-lata” da rua. Antes, estabelece paralelo com os cachorrinhos carinhosamente tratados dentro de casa, ao lado dos filhos (“ das criancinhas”, como diz ela) e que comem da mesma comida dos filhos, apenas um pouco mais  tarde. Daí a beleza da resposta: “ mas antes da ração maior que lhes cabe, os cachorrinhos aproveitam as migalhas que caem da mesa dos filhos”.

Monsenhor Louis Pirot (“La Sainte Bible”vol. IX, pág. 485), assim termina seu comentário a este trecho: “Deve citar-se o exemplo da siro-fenícia como modelo da prece susceptível de tudo obter, por ser feita com fé, humildade, confiança e perseverança. Tudo estava contra essa mulher, primeiro sua religião e sua raça, depois a atitude pouco animadora dos apóstolos, o silêncio e afinal a recusa de Jesus. Não obstante, pode dizer-se, ela esperou contra toda a esperança, e sua prece foi ouvida”.

Outra lição de grande profundidade (como todas!) é-nos apresentada neste episódio

comovente.

Examinemos rapidamente os termos geográficos, a fim de descobrir, dentro do fato material apresentado, o simbolismo escondido sob o véu da letra.

Canaã exprime “negócio, comércio” ou, segundo Philon de Alexandria (“Os Sacrifícios de Abele de Caim”, nº 90), “terra de agitação”.

Tiro e Sidon significam respectivamente “força” e “caçada”.

Síria e Fenícia têm o sentido de “elevado” e de “púrpura”.

A individualidade retira-se para uma busca: quer encontrar uma alma, a fim de estabelecer contato místico com ela. Talvez, por isso, os evangelistas tenham ligado as duas cidades, dizendo “o território de Tiro e de Sidon”. Na realidade essas duas cidades ficavam bem distantes uma da outra (cerca de quarenta quilômetros à vol d’oiseau). A união das duas, quando entre elas havia ainda, a meio caminho, a cidade de Sarepta, não deixa de ser estranha. Não seria um simbolismo para salientar que a “viagem” tinha como objetivo uma “forte caçada”, uma busca intensa?

Lá se encontra a alma de escol, verdadeira “púrpura elevada”, vermelha de amor sublime emístico, embora mergulhada na “terra de agitação” dos negócios materiais.

O encontro desse intelecto privilegiado (a última resposta sua revela-lhe o notável desenvolvimento intelectual) com o Cristo, é de indiscutível beleza.

Apesar de procurada (“caçada”) pelo Cristo, o primeiro passo para o encontro efetivo é dado pelo “espírito”, como não podia deixar de ser, em virtude do livre-arbítrio. Mas ele reconhece imediatamente o “Filho de David”, e a ele se apega, suplicando seu auxílio para libertar-se (para libertar a filha bem-amada – a corpo de emoções) de terrível obsessão que a faz sofrer: (que faz sofrer a intelecto). O intelecto busca, então, o domínio das emoções, descontroladas por forças estranhas (meio ambiente, educação, etc.), sacudidas pelo espírito de ambição e pelos desejos desregrados, verdadeiramente obsidiadas. E o caminho único é o encontro, com o Cristo Interno.

Não é fácil, porém. Embora residindo no âmago de nós mesmos, constitui tarefa árdua o encontro e a unificação com o Cristo. Aprendemos, então, a técnica da insistência humilde, que suplica com todas as forças de que é capaz, que ora em voz alta, que grita angustiadamente, suplicando socorro.

Os demais veículos (os “discípulos”) aconselham que seja o intelecto persuadido a desistir de seu intento. Mas ele persiste, apesar de tudo.

Como necessidade de experimentação, o Cristo diz que primeiro terão que ser atendidas “as ovelhas” perdidas da “ casa de Israel”, ou seja, as individualidades religiosas já espiritualizadas. O intelecto, embora cultivado, precisa elevar-se mais, não permanecendo no nível personalístico animalizado (“cachorrinhos”), para que possa pretender alimentar-se com o pão sobressubstancial destinado aos “filhos”, aos já espiritualizados.

Nessa ocasião é que o intelecto se revela realmente superior, porque humilde, e sai com aquela “tirada” maravilhosa: “embora ainda indigno, o intelecto come as migalhas que lhe chegam através da intuição”.

Vencera, porque satisfizera a uma condição fundamental para o Encontro Místico: a

HUMILDADE. Pela humildade verdadeira e sincera o homem sintoniza perfeitamente com a Divindade, a criatura identifica-se ao Criador, o Filho une-se ao Pai, o ser unifica-se à essência da Vida.

O Cristo manifesta-se, então, plenamente ao coração desse ser humilde, preparado, inteligente e ardoroso, cheio de fé e de amor; e nesse mesmo momento da unificação, “a filha é curada em sua casa”, isto é, as emoções são controladas dentro de seu corpo físico.

Em todos os passos evangélicos o ensino é o mesmo: claro e cristalino límpido e sem discrepâncias. Não é possível ocultar-se a verdade que transparece tão nítida, através de um simbolismo maravilhoso e diáfano.

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