Avaliação no Centro Espírita

Avaliação no Centro Espírita
CEZAR BRAGA SAID
Recomendada por Santo Agostinho,1 a avaliação é uma das práticas mais saudáveis e necessárias ao aprimoramento de alguém, de um trabalho ou de uma instituição. Através dela podemos constatar o que vai bem e o que precisa ser reajustado, imprimindo maior qualidade ao trabalho que realizamos. 
Mas o que é avaliar? O que avaliar? Por que e para que avaliar? Quando avaliar? Como avaliar? A busca de respostas para essas perguntas representa um bom começo para pensarmos em avaliação no Centro Espírita. Façamos então algumas digressões.
Para alguns “avaliar é verificar se os objetivos estabelecidos foram atingidos”, para outros “é um processo de tomada de decisões”, podendo ser também “um julgamento de mérito e relevância”, ou seja, da qualidade e organização de alguma coisa (mérito) e dos seus resultados sociais (relevância). 
Dentro da infinidade de conceitos possíveis, diremos que avaliar é identificar os pontos fortes e fracos de um programa, projeto, instituição, desempenho de alguém, procurando fortalecer o que vai bem e retificar o que vai mal. Avalia-mos porque é importante nos situarmos em relação ao que fazemos, a fim de melhorarmos continuamente, gerando sempre progresso.
Exatamente como afirma a educadora Jussara Hoffman 2 , quando propõe “(…) que a avaliação leve à intervenção, à melhoria, não apenas a apontar problemas, mas tentar solucioná-los”. Por isso é que mais importante do que os resultados serão os encaminhamentos que daremos a eles.
Da mesma forma que não vamos esperar chegar ao fim da atual reencarnação para avaliarmos se sabemos ou não viver bem, toda instituição espírita atenta aos seus compromissos tem necessidade de estar continuamente se avaliando.
Como avaliar é também expressar um juízo de valor, a todo instante estamos avaliando e sendo avaliados. O que não podemos perder de vista é a necessidade de nos auto-examinarmos, com o devido cuidado para não sermos severos com os outros e extremamente indulgentes conosco, invertendo a proposta do Espírito Dufêtre, exposta em “O Evangelho segundo o Espiritismo”. 3
Quem avalia insere-se no que é avaliado, colaborando para o êxito ou o fracasso do que está avaliando, construindo assim o seu próprio sucesso ou insucesso.
Existem alguns critérios fundamentais que não podem deixar de estar presentes no processo avaliativo, principalmente quando esse se dá num Centro Espírita:

•Utilidade – para que servirão os resultados da avaliação? Em que sentido eles poderão servir como indutores de mudanças? Serão úteis para quem?
•Viabilidade – o processo avaliativo que se pretende desenvolver é possível de ser realizado? Está estruturado de acordo com as necessidades das pessoas do Centro?
•Precisão – há um planejamento que demarque etapas, recursos, tempo
e os objetivos que pretendemos alcançar com a avaliação? Há uma sensibilização prevista, de modo que todos possam aderir à avaliação e dela participar de forma consciente?
•Ética – que valores fundamentam o processo avaliativo? Qual o nível de participação das pessoas que estarão envolvidas? Como serão utilizados os resultados?
Pelo fato de não estarmos numa empresa produzindo algum tipo de produto, não iremos avaliar a qualidade e nem a quantidade com que este é produzido.
Logo, precisaremos estar atentos a alguns indicadores de qualidade que serão objeto da avaliação no Centro Espírita, independentemente do departamento ou setor a ser avaliado:

•Assiduidade e pontualidade nas tarefas; •Boa vontade nas iniciativas; •Aplicação no estudo da Codificação e demais obras auxiliares; •Esforço continuado em superar as más inclinações; •Empenho em melhorar as relações interpessoais; •Grau de satisfação pessoal na realização da tarefa; •Consciência da importância da tarefa para o bom funcionamento do Centro como um todo; •Conhecimento dos objetivos do departamento ou setor onde atua. 

Esses e outros indicadores que possam ser criados servem como parâmetros para aferição da qualidade das relações que estabelecemos com as nossas tarefas.
Por mais difícil que seja, é importante que a avaliação gere prazer e contentamento, pois as falhas diagnosticadas permitirão uma reflexão e uma tomada de atitudes que conduzam todos ao crescimento. Avaliar não é sinônimo de punir, mas de reorientar e promover.
Dentro dessa proposta, não estaríamos avaliando a capacidade das pessoas (Espíritos), mas conduzindo todos a uma auto-avaliação, de modo que cada um se compare consigo mesmo, percebendo como era, como é, e como poderá ser.
Diz ainda a educadora Jussara Hoffman 4 :

“Ninguém muda a cabeça de ninguém, na verdade as pessoas só mudam suas práticas quando descobrem novos significados.”
E essa descoberta se dá de forma diferente em cada um.

Vejamos o que diz Dona Laura a André Luiz, no livro “Nosso Lar”5 :
“(…) Parece ainda distante o tempo em que os institutos sociais poderão determinar a qualidade de serviço dos homens, porque, para o plano espiritual superior, não se especificará teor de trabalho, sem consideração dos valores morais despendidos. (…) os fatores assiduidade e dedicação representam, aqui, quase tudo.”
No livro “Missionários da Luz”6 , referindo-se às qualidades essenciais que credenciam os Espíritos a abraçarem grandes tarefas confiadas pela espiritualidade superior aos encarnados, o Espírito Sertório, dialogando com André Luiz, destaca quatro delas:
“(…) Deus chama todos os filhos à cooperação em sua obra augusta, mas somente os devotados, persistentes, operosos e fiéis constroem qualidades eternas que os tornam dignos de grandes tarefas. E, reconhecendo-se que as qualidades são frutos de construções nossas, nunca poderemos esquecer que a escolha divina começará pelo esforço de cada um.”
Essas quatro qualidades citadas por Sertório, a devotação, a persistência, a operosidade e a fidelidade podem servir como parâmetros para um programa de auto-avaliação que cada companheiro pode aplicar a si mesmo. 
Como não há lugar para ditaduras, submissão cega e veneração nos ambientes espíritas, toda avaliação estará centrada num processo de negociação, onde o consenso será sempre buscado, mesmo entre pessoas que possuam pontos de vista diferentes.
A criação e o desenvolvimento de uma cultura de avaliação possibilitará ao Centro crescer, buscar objetivos e metas que tenham sido traçadas por todos os envolvidos. Impedirá o imobilismo e gerará uma “inquietude necessária”, mobilizadora, transformadora, capaz de aproximar e reunir os que acreditam e trabalham pelo progresso. Mesmo porque, como disse Allan Kardec 7 , a imobilidade, “(…) longe de ser uma força, se torna causa de fraqueza e de ruína, para quem não acompanha o movimento geral; quebra a unidade, porque os que querem avançar se separam dos que persistem em ficar atrás.”
Embora não existam receitas prontas, as experiências de outros Centros Espíritas que estejam desenvolvendo e sistematizando uma ou diversas práticas de avaliação poderão ser bastante úteis, conhecidas “e adaptadas” à realidade de cada Centro. Poderão auxiliar bastante até que o próprio Centro desenvolva um processo avaliativo genuíno, isto é, com características próprias.
O que não se concebe mais é que percebendo os erros nada façamos para corrigi-los e sabendo que podemos fazer mais e melhor, ainda façamos menos e nos conformemos com os parcos resultados alcançados.
Vale citar a colocação de Franzolim 8 , num trecho do seu livro “Como Administrar melhor o Centro Espírita através das pessoas”:
“Do ponto de vista da administração, não se concebe que uma organização desenvolva suas atividades sem registrar suas realizações, analisar sua evolução, comparar com outros períodos e outras organizações, identificar as variáveis de influência, determinar medidas de correção e melhoria, replanejar suas atividades e divulgar suas metas.”
Como se pode ver, a presença de um processo avaliativo ético, útil, viável e preciso de todas as atividades trará benefícios individuais e coletivos. Todos os trabalhadores ficarão mais ricos e mais capazes de realizar melhor as suas tarefas, além das relações interpessoais ganharem em qualidade. 
Para isso há que se enfrentar as resistências, sobretudo aquelas existentes em nosso próprio coração. Teremos que nos precaver das investidas do mundo espiritual inferior, que, sabendo o quanto essas iniciativas darão mais coesão e unidade ao trabalho do Centro, tentarão suscitar melindres, rivalidades, suspeitas, induzindo-nos a situações vexatórias, de modo a comprometer a seriedade do trabalho.
Sugerimos que todo esse processo passe primeiro por uma negociação, ou seja, uma exaustiva discussão que procure ir sensibilizando a todos e definindo melhor o que, como, quando, por que e para que a instituição começará a se avaliar de forma mais sistemática. Poder-se-á começar por aquele departamento mais sensível à idéia e depois de analisados os ganhos proporcionados pela primeira experiência estender-se o processo ao Centro como um todo.

Reformador de Dezembro/2000

Referências Bibliográficas:
1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987, questão 919.
2 Jornal do Brasil, 12-9-1999.
3 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 116. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1999,
cap. X, item 18.
4 Jornal do Brasil, 12-9-1999.
5 XAVIER, Francisco Cândido, pelo Espírito André Luiz. Nosso Lar. 49. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 1999, p. 122-123.
6 Idem. Missionários da Luz,. Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 81.
7 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 28. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1998, p. 350.
8 FRANZOLIM, Ivan René. Como Administrar melhor o Centro Espírita através das pes-soas.
São Paulo: USE, 1996, p. 112.

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Uma resposta para “Avaliação no Centro Espírita

  1. Gostei do blog. De Olho No Mundo(www.deolhonomundo.com) analisa a essência humana, o mundo, astrologia, fenômenos ocultos…, em sua plenitude. Nesse vídeo ela fala sobre a libertação das mulheres – http://youtu.be/hJ9gk9Sap4Y – Tenho certeza que vocês gostarão. Abraços.

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